Matéria produzida pelo Jornal da Gazeta. Destaca o crescimento do comércio de discos na Nova Barão, tomando o espaço antes detido pela Galeria do Rock, que agora reúne lojas mais voltada para acessórios de moda do que de música. Vale a pena conferir.
O programa Circo Circuito é um blog de vídeos produzido pelo Lipa, que já havia nos dado o prazer de uma entrevista na última feira do Tangerino. Ele mantém um blog com vídeos e discute música e a cultura do vinil. Em abril, o pessoal dOs Haxixins vieram divulgar seu LP na Leprechaun e foram entrevistados pelo Lipa. Confira o vídeo.
Pode até parecer estar um pouco escondida dentro da galeria, mas a Leprechaun Discoscertamente não assumirá esse papel em termos de importância no cenário de vinil em SP. A partir do momento que você entrar no mais novo espaço da Nova Barão, verá o porquê. De imediato, ficará boquiaberto pelos destaques expostos nas paredes. Tantas belezinhas! Só na minha primeira visita, vi ótimos exemplares de todas as épocas e gêneros da música: Racional, do Tim Maia, Acabou Chorare, dos Novos Baianos, o segundo disco doCartola, além de clássicos internacionais, como o Ziggy Stardust do Bowie, White Album dosBeatles, Kid A do Radiohead e Nevermind the Bollocks do Sex Pistols. Nessa hora, parei e pensei: Será que tem coisa boa nas prateleiras também? E o preço, será que vale a pena? Bem, decidi me aventurar. E que surpresa! Cada seção que eu olhava me presenteava com muitos clássicos! Pouquíssima coisa desinteressante ocupava espaço nas prateleiras. A loja conta com seções de 60s/70s, 80s/90s, 00s, todas divididas em nacional e internacional, além de setores voltados a gêneros específicos, como Reggae, Black Music e Excentricidades , como o dono da loja mesmo definiu.
De 2008 para 2009 a indústria musical vendeu 30% a menos em CDs. Em compensação, no mesmo período houve um aumento de 47% na venda de discos de vinil. Ainda que os números absolutos sejam pequenos, há uma tendência no ar.
Meu amigo de longa data e fã de discos de vinil, o Fernando Araújo do Dominódromo, escreveu um texto belíssimo dissecando os pormenores desse momento. Tomei a liberdade de copiar o trecho abaixo na maior cara de pau. Na verdade é quase o post inteiro, mas realmente vale a pena. :)
Havia um interesse financeiro das gravadoras na transição do vinil para o CD. Seus olhos brilharam com a chance de vender um disco duas vezes para a mesma pessoa. O processo, porém, não foi somente uma jogada lucrativa. O CD é uma mídia superior ao vinil, no sentido estrito. Permite uma vida sem trocas de lados, deformações por temperatura e umidade, arqueologia de sulcos microscópicos a cada troca de faixa, e dores na coluna na hora de levar os discos para outro lugar. Ele fez sentido.
A situação mudou com o surgimento do MP3. A distância entre ele e o CD é mínima. Ambos são digitais, ainda que em compressões distintas. E o MP3 tem a vantagem das vantagens: é gratuito. O vinil, entretanto, não é digital. Promete sonoridades estranhas, exóticas, orgânicas. E fica muito mais bonito na estante.
Seria exagero dizer que o vinil vai tirar a indústria fonográfica do buraco, mas dá para afirmar que a bolacha preta está salvando o mês de boa parte dos lojistas de São Paulo.
Veja, por exemplo, a Baratos Afins, que há 31 anos é um dos principais destinos paulistanos para quem quer conhecer e comprar música: "Hoje 80% do meu faturamento vem das vendas de vinil", afirma Luiz Calanca, o proprietário da loja.
Leonardo Wen/Folha Imagem
Proprietário da Baratos Afins, tradicional loja de disco de SP, Luiz Calanca investe no mercado de vinil
"Estou me sustentando porque sempre tive um acervo grande de vinil. Está muito difícil vender CD", aponta. A situação é parecida na tradicional Ventania Discos. "Também vendemos CDs, mas é menos importante. O que faz girar a nossa receita é a venda de vinil", diz Alcides Campos.
Impossibilitados de competir com os CDs piratas e com os download gratuitos, lojistas se apoiam no fetiche, no saudosismo e na curiosidade suscitados pelos LPs.
"O CD perdeu o glamour", opina Calanca. "Recebo uma parcela de clientes jovens. Mas a maioria são colecionadores e DJs. Eles compram bastante coisa de rock e de black music", diz Carlos Galdy, da Disco 7.
"Muita gente começou a ouvir vinil de quatro, cinco anos para cá e passou a procurar discos nesse formato. Há os curiosos e há aqueles mais velhos, os saudosistas dos anos 1970 e 1980", brinca Alcides, que completará 25 anos com sua Ventania em 2010.
Legião Urbana
O preço de um vinil nas lojas varia de R$ 2 (um usado em estado não muito bom) a R$ 70 (um importado novo). "O vinil é item complementar, não é o centro das atenções", diz Rodrigo de Castro, gestor de acervo de música da Livraria Cultura. Ele afirma que discos de Amy Winehouse ("Back to Black") e Radiohead ("In Rainbows) foram os campeões de venda da loja no ano --200 cópias cada um. "Para nós, é um bom negócio, porque ocupa pouca estrutura e traz um faturamento razoável."
Não é apenas no Brasil que esse nicho está sendo resgatado. Nos Estados Unidos, as vendas de vinil subiram 35% em 2009 em relação a 2008 --até novembro, foram vendidos 2,1 milhões de LPs no país.
A EMI lançará no formato, em 2010, toda a discografia da Legião Urbana. Já a Sony colocou nas lojas a série "Meu Primeiro Disco", com LPs de gente como João Bosco e Chico Science & Nação Zumbi. Com a reabertura da fábrica de vinil de Belford Roxo (veja texto), outras gravadoras, como a Som Livre, devem preparar lançamentos.
"O vinil não vai mais ter um mercado muito grande", diz Leonardo Ganem, presidente da Som Livre. "Mas vamos fazer investimentos pontuais nesse setor."
RIO - Relançamentos em formato duplo: trazem um CD (para ser ouvido) e um vinil (para se admirar, como a um quadro). Ao iniciar Meu primeiro disco, série que recupera discos de estreia de artistas pertencentes a seu catálogo, a Sony Music decidiu priorizar o vinil – já que todos eles, gravados para os antigos selos CBS e RCA, haviam sido concebidos para o formato, como é o caso de Longe demais das capitais (Engenheiros do Hawaii, 1986), Da lama ao caos (Chico Science & Nação Zumbi, 1993) e das estreias homônimas de João Bosco (1973), Vinicius Cantuária (1982) e da banda Inimigos do Rei (1989). Cada um deles sai num kit (a R$ 90) com capa original, encarte com letras e reportagens da época e vinil novo, feito nos Estados Unidos. Incluem também a versão em CD, em formato de minivinil. Pela falta de toca-discos no mercado, este último vai acabar sendo o formato usado pelos compradores para ouvir as obras – reeditadas em vinil mais como referência ao passado do que como suporte.
O programa MTV Debate, apresentado por Lobão, abordou a questão do vinil como um suporte para a produção fonográfica, justamente no momento em que o mp3 e o compartilhamento de arquivos são cada vez mais populares.
Seguindo a tendência de valorização da cultura dos discos de vinil, a MTV mantém em seu site o blog Viva o Vinil, mantido pelo jornalista Daniel Vaughan.