| História do Jazz em 16 discos |
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| Ter, 24 de Fevereiro de 2009 22:06 |
Tentativa de explicação da complicada história do complicado ritmo – do Swing aos dias de hojeDe início, a definição. Jazz. Mas Jazz não tem definição. Não há uma explicação clara e sintética pra descrevê-lo. Na década de 40, era possível definir o Jazz com alguma clareza. Depois disso, com o advento do Jazz moderno, virou uma tarefa absolutamente impossível. De qualquer maneira, é uma forma musical norte-americana. Origem principal: New Orleans. O Jazz não é somente negro, uma vez que New Orleans não era uma cidade completamente negra. Fica no Delta do Mississippi, saída e entrada para o continente, de cara pro golfo e pro caribe. Cidade outrora francesa, depois se tornou americana, mas foi área de influência espanhola, inglesa, holandesa e tudo mais. Ou seja, uma zona. Não é uma cidade, é tipo uma guarita de alfândega, tamanho o fluxo e a fusão de línguas e culturas. Berço do Blues também. Não por acaso. O Jazz tem muitas lendas de como teve origem (como se fossem mitos de criação). Uma das que eu mais gosto era de que os negros adquiriram instrumentos de sopro jogados no lixo pelos brancos. Muitos desses instrumentos eram defeituosos, e isso forçou-os a tocar em outras escalas musicais. Acabou surgindo então o Jazz. A gama de influências musicais são as seguintes: o blues (que vinha de uma fusão entre a música africana e os spirituals, músicas de colheita de algodão. O Blues possui escala musical diferenciada, cinco notas apenas), a música tradicional norte-americana (o que pode ser dito Folk), a música de cabaret , música militar (bandinhas, fanfarras e aquele tipo de som que em New Orleans acompanha todo acontecimento social, desde o carnaval até o enterro, e isso não é linguagem figurada). Ok, sem me alongar muito. A característica principal do Jazz é a tensão entre dois pólos da música: a composição e a improvisação. Em algumas músicas, mais um ou o outro pólo. No Swing, década de 30, muita composição e pouca improvisação. No Free Jazz, década de 60, muita improvisação e quase nada de composição.
Kings Of Swing – Coletânea Alemã, lançada na década de 1970
Bom, nesse disco, as mais importantes Big Bands da Era do Swing. Benny Goodman, depois de copiar Fletcher Henderson, teria formado a primeira Big Band de Swing em Nova Yorque, em 36, por aí. Era a Era do Rádio, e até os nazistas não resistiram à dança. O Swing atingiu o ápice durante a II Guerra, e se espalhou por todo o mundo junto com as botas, tanques, garrafas de coca-cola, mickey mouse, chicletes e aviões norte-americanos. Glenn Miller também está presente, líder de uma Big Band e major do exército que morreu em um acidente de avião no auge do sucesso. O Swing foi uma importante manifestação da rebeldia juvenil, tendo gerado preocupação de pais e educadores, assustados com a forma com que levava seus filhos à perdição carnal, moral e química. Em um período da história americana marcado pela segregação racial, algumas Big Bands rompiam a tradição e uniam músicos brancos e negros no mesmo palco. Destaques: St. Louis Blues com Louis Armstrong, Drumboogie de Gene Krupa e Caravan de Duke Ellington.
Anita O'Day With Gene Krupa- Let Me Off Uptown – Coletânea - 1999 Gene Krupa, que havia pertencido à banda de Goodman, foi o maior baterista de todos os tempos. Todos os bateristas do Rock devem tudo a ele. Era um virtuose, junkie (teve muitos com a lei), e gênio. Aqui, em um disco com a cantora Anita O’Day e o trompetista Roy Eldridge. Alguns vídeos no Youtube mostram suas performances. Destaques: todas.
The Quintet - Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach, Charles Mingus - Jazz At Massey Hall – 1953. Depois da Guerra, o swing perdeu força e se tornou comercial demais, pois tudo era a repetição de velhas fórmulas. Em NY, jovens negros de todo o canto do país começaram a se reunir no Harlem e criar um tipo de música frenético e criativo, o Bebop. Charlie Parker, que teve uma trajetória de vida muito conturbada, literalmente desconstruiu a música americana e fez dela uma colcha de retalhos. O Bebop divide o Jazz em dois momentos distintos, e sua importância é enorme. Aqui nesse disco, os cinco maiores músicos do Bebop: Parker, Gillespie, Roach, Mingus e Bud Powell. Outro grande foi Thelonious Monk, que abriu caminho para o que veio depois. Bom, Parker tinha uma dependência de heroína que o perseguiu até seu último ano de vida, 1956. Depois de sua morte apareceram pixações em vários cantos: BIRD LIVES! Bud Powell também teve uma história peculiar, pois seu estado variava da loucura para a genialidade em pouco tempo. Destaques: Salt Peanuts, e A Night In Tunisia, que Art Blakey assim se referia: “Eu me sinto particularmente próximo a esse som, pois estava lá quando Dizzy Gillespie a compôs, no Texas, em cima de uma lata de lixo. Sério.”
Miles Davis Quintet - Steamin' With The Miles Davis Quintet – 1956 O trompetista Miles Davis foi uma das maiores figuras do Jazz. Havia tocado no conjunto de Parker, e foi responsável por criar um novo tipo de Jazz, o Cool Jazz. Paralelo à tensão do Bebop, o Cool é caracterizado pelo lirismo. Nota: o trompete de Miles não tem vibrato. Nesse disco clássico, seu famoso quinteto (no qual Coltrane era funcionário), o maior ensemble do Jazz. Nesse disco, Hard Bop com a pegada Cool de Miles.
Art Blakey And The Jazz Messengers – Moanin’ – 1959 Art Blakey foi o maior nome do Hard Bop, no qual a gravadora Blue Note teve papel fundamental. O Hard Bop teve como pano de fundo os anos 50, NY. Caracterizou-se pela incorporação de outro gêneros, como o soul e o gospel. Sua banda, os Jazz Messengers, revelou músicos de várias gerações que marcaram a música, como Horace Silver, Clifford Brown e Wynton Marsalis. Art Blakey também se aventurou por ritmos africanos, no seu álbum “Orgy In Rhythm”, de 1957. Destaques: todas.
Dave Brubeck Quartet – Time Out - 1959 Um dos mais importantes discos daqui, Time Out pertence ao West Coast Jazz. Cada música desse disco é extremamente experimental sem parecer. Cada uma possui uma contagem de tempo incomum no Jazz, usando ritmo de valsa, de música turca e o cacete. Com ele, o Cool Paul Desmond ao Sax alto. Brubeck incorporou prestígio técnico com sucesso comercial, pois esse foi o segundo disco de Jazz mais vendido na década de 50, só perdendo para Kind Of Blue, de Miles, 1959.
John Coltrane - A Love Supreme - 1964 Disco brisa forte. Coltrane, que tinha tocado com Miles, se afundou na heroína por um período, se reabilitou e voltou mais genial do que nunca com seu próprio conjunto. Incorporou música indiana, árabe e filosofia metafísica pra explicar sua obra. Passou a fazer música espiritual, querendo levar a estados de consciência inomináveis. A base musical de A Love Supreme é muito simples: pertence ao Jazz Modal, estilo iniciado pelo Kind Of Blue. A base musical das composições não é mais a progressão de acordes da música tradicional americana, como era no Bebop. O tema central é composto apenas de três notas.
Max Roach – We Insist! Freedom Now Suite - 1960 Esse disco tornou-se um ícone na luta por direitos civis dos negros, que marcou profundamente a década de 60 nos EUA. Na capa, uma forma de protesto que consistia em se sentar tranqüilamente nos locais destinados aos brancos nas lanchonetes. Um ato de desobediência civil perante a segregação. Destaques: All Africa, hino do Pan-africanismo; Triptych é um grito de desespero de Abbey Lincoln.
Charles Mingus – Tijuana Moods - 1962 Mingus e sua banda passram um tempo em Tijuana, voltaram aos EUA e fizeram esse disco. Ficou na gaveta da gravadora por alguns anos, e só depois foi lançado, o que acontece quando a música defronta com o tino comercial da indústria fonográfica. Se vendeu bem ou não, não importa. Já vale pela capa. E o seu conteúdo é bem isso mesmo. Extremamente insinuante.
Meirelles & Os Copa 5 – O Som - 1965 Meirelles, que morreu esse ano, tocava na bar Bottles no começo dos 60, no Rio, também conhecido como beco das garrafas. Foi o responsável por criar o arranjo de "Mais que nada," de Jorge Ben. Nesse disco, Samba-Jazz de extrema qualidade. Autêntico e com personalidade em cada nota.
Quincy Jones – Big Band Bossa Nova – 1962 Aqui, o resultado da inserção da Bossa nos EUA. Quincy Jones, que começou a tocar com Ray Charles quando não eram conhecidos por ninguém, fez muito dinheiro compondo trilhas e um pouco de tudo. The Newest Latin American Rhythm é o subtítulo do disco. O Jazz mudou para sempre o samba, da mesma maneira que a Bossa mudou para sempre o Jazz. Austin Powers que o diga.
Herbie Hancock – Takin’ Off - 1962 Hancock tocava na década de 60 no quarteto de Miles. Faziam uma música que experimentava de maneira particular, fazendo um Jazz de vanguarda muito bem elaborado. Nesse disco, o primeiro que Hancock lidera, incorpora algo do soul, presente já na primeira música. Daí em diante, Herbie Hancock sobrevive às muitas mutações pelas quais o Jazz passa, e continua sendo um nome de peso. Nos anos 70, eletrificou seu som e deixou marcas que puderam ser ouvidas no seu último show em São Paulo.
John Coltrane – Ascension - 1965 A experimentação de Coltrane atingiu seu ápice com esse disco, Ascension, no qual se incorporou à vanguarda nova-iorquina que levava o Jazz às últimas conseqüências, com o Free Jazz. O Free Jazz não aceita a composição, apenas define um tema muito básico e logo passa à improvisação descontrolada de cada um dos integrantes do conjunto. O resultado é inesperado: nenhuma música do Free Jazz pode ser reproduzida novamente, uma vez que cada músico cria um som diferente cada vez que toca. O estilo teve início com o álbum Free Jazz, de Ornette Coleman, 1961. Naquele álbum, uma pintura de Jackson Pollock aparece na capa. E como no Expressionismo abstrato, o Free Jazz é Action Painting.
Miles Davis - A Tribute To Jack Johnson - 1970 Miles Davis não aceitou a contribuição do Free Jazz, e no fim dos anos 60 sua música trilhou um caminho paralelo: eletrificou sua banda. O resultado: se tornou um pioneiro do Jazz elétrico, abrindo caminho para o Jazz Fusion, ou Jazz Rock, com o álbum Bitches Brew, de 1969. Nesse disco, A Tribute to Jack Johnson, homenageia o primeiro jogador negro de Baseball a ganhar um campeonato nacional. Jack Johnson também foi homenageado por outro drande artista negro, já nos anos 80: uma tela de Jean-Michel Basquiat. Miles Davis, com seu Fusion, incorporou um grande inimigo do Jazz na década de 60: o Rock. Depois de Elvis, Beatles e Stones, o Jazz perdeu espaço nas prateleiras de discos e deixou de ter o mesmo impacto que havia tido. Nos anos 70, Miles Davis conquistou um grande público jovem e se tornou mito.
US3 - Hand On Torch - 1993 Na década de 90, o Jazz já não possuía nada daquilo que caracterizou-o nas décadas anteriores. O gênero, como não poderia deixar de acontecer na modernidade, se auto-consumiu e se questionou até perder a audácia criativa que o caracterizou. O início da década foi marcado pelo Acid Jazz, na Inglaterra, caracterizado pela incorporação de linguagens recentes, como a música eletrônica, o Rap e seu elemento principal: o Sample. O Us3 teve à sua disposição o catálogo da Blue Note, criou um álbum de colagens e inseriu uma linguagem contemporânea no Jazz.
Squirrel Nut Zippers – Hot – 1997 Banda mais bem-sucedida do Swing Revival, ou Neo Swing, junto com Big Bad Voodoo Daddy e Royal Crown Revue, que compôs a trilha do filme O Máscara. O Neo-Swing é retrô e saudosista por excelência, pois tenta reproduzir a atmosfera musical da década de 30 e 40. Mas carrega também um pouco do Do It Yourself, intuição herdada do Punk. Leprechaun Discos. |
| Atualizado em Qua, 04 de Março de 2009 00:14 |