Na encruzilhada entre disco e mp3 |
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| Ter, 08 de Setembro de 2009 17:42 |
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Por Márvio dos Anjos Sou um apreciador de artigos em vias de desuso. Ópera, poesia e mulheres sem curiosidade bissexual. Um deles é o disco, o LP propriamente dito. Acho estranho o consumo musical feito através de downloads imaterias, sem capa, sem encarte, sem espera anciosa. Como tantos prazeres, descobrir uma canção hoje tende ao casual, dadas a enorme oferta de música, a facilidade e a pressa que temos em consumir. Obviamente sou um ouvinte produzido pela segunda metade do século 20. Antes de jogar pedras em quem desfilaseu iPod, recuo e lembro que meu hábito também foi estimulado pela indústria. O setor fonográfico primeiro se apresentou através de compactos - que, sim, fizeram história na música - até que surgiram os long-plays e, aí, forma determinou conteúdo. Espertos, os Beatles entenderam o disco como espaço para o conceitual no pop e, assim, até abandonaram os shows. Salvo engano, o movimento contrário, o conteúdo estimulando a forma, só aconteceu nos anos 1980, quando o presidente da Sony decidiu que o CD deveria ter 75 minutos para que um único disco contivesse a "Nona Sinfonia" de Beethoven. E a evolução não para. Depois que o Radioheard deixou que os fãs escolhessem o preço do disco em mp3 (e por conceito determinou que o disco Kid A seria lançado em formato 3/4 duplo), a banda decidiu ainda lançar singles virtuais. Foram três canções no espaço de duas ou três semanas, todas razoáveis; nada ruim, mas nada impressionante. O resultado é como um amistoso da Seleção Brasileira: pode até ser o melhor time do mundo, mas quem presta atenção? Não seria diferente o impacto caso viessem juntas com outras ansiosamente esperadas? Por extensão, será que, diluídos em "fascículos semanais", os discos do Radioheard teriam feito a história que fizeram? A verdade é que somos adaptáveis; aostumamonos aos formatos oferecidos - principalmente quando exigem menos concentração. Uma geração inteira já se formou mirando o hit em mp3 e desprezando todos os minutos dispensáveis que o acompanhariam em CD. Nessa encruzilhada, o álbum de 10 a 12 músicas só se justifica se servir de suporte para um painel sólido, que necessite de mais espaço do que três minutos. O que pode fortalecê-lo como produto cultural, ainda que menos massificável (tudo bem, livros também são para poucos), ou torná-lo mera plataforma de pretensões - exatamente como álbuns duplos e tripos do passado. |
| Atualizado em Qui, 10 de Setembro de 2009 12:45 |

